"Você sabe quem é, do que você é feito.
A guerra está no seu sangue, não tente evitá-la.
Você não matou pelo seu país, matou por você mesmo.
Nem Deus consegue mudar isso.
Quando te pressionam, matar é tão fácil quanto respirar."
Definitivamente, John Rambo é um personagem injustiçado. Acho que poucos personagens de filmes de ação brucutu dos anos 80 tinham uma carga emocional e personalidade tão marcantes como ele. Talvez porque ele não surgiu como um produto desse tipo de cinema do período e sim num livro que tinham outros propósitos, muito além de criar meramente um soldado implacável (livro este que deveria ser republicado no Brasil). O fato é que, com o passar dos anos, principalmente graças às sequencias do primeiro filme, Rambo passou a ser tratado por grande parte da crítica e até do público como apenas um simbolo americano ufanista, cujo único propósito é defender o American Way of Life ou simplesmente como uma grande exaltação à violência e à guerra. O lançamento do quinto (e provavelmente último) filme enfatizou muito bem isso, independente de você ter gostado ou não do filme, o fato é que boa parte da crítica e público não avaliou o filme em si, mantendo a discussão apenas em "violência-México-Trump", e digo isso tanto entre os que odiaram, quanto os que amaram o filme. Eu mesmo reconheço que, com exceção do primeiro filme, realmente, a histórias dos filmes se tornam bem simples com vilões extremamente vilanescos e personagens um tanto rasos, afinal o grande propósito desse filmes é apenas entreter como filme de ação, o que na minha opinião faz muito bem.
Porém, mesmo nestes filmes com propósitos mais simples e diretos é possível encontrar um personagem fascinante, e como a personalidade dele progride (ou regride, dependendo do ponto de vista) com o passar dos filmes, tornam a experiência um pouco acima da média se tratando de filmes de ação brucutu, e digo isso sendo um grande fã de filmes de ação desse tipo. Afinal, Rambo é um cara depressivo, com estresse pós-traumático, que tentou reconstruir sua vida após a desastrosa e trágica Guerra do Vietnã, mas ao invés disso, teve que encarar a rejeição de um país que o considerava um assassino, com passar do tempo, e dos filmes, nota-se que o Rambo desistiu de tentar se reinserir na sociedade americana, para procurar apenas um lugar onde pudesse encontrar a paz, embora suas tentativas eram eventualmente frustradas pelo Coronel Trautman, e ele se via novamente envolvido em uma guerra que não era dele. Pois bem, após toda essa longa introdução eu posso chegar ao objeto principal desta resenha que é o Rambo IV, que na minha opinião é melhor filme da série depois do primeiro, não apenas por dar continuidade neste "desenvolvimento de personagem" mas também, e principalmente, por ser um puta filme de ação.
Lançado em 25 de janeiro de 2008 (29 de fevereiro no Brasil), Rambo IV foi lançado com a proposta de revitalizar a série protagonizada por Sylvester Stallone, que 2 anos antes tinha sido bem sucedido na mesma empreitada com Rocky Balboa, com o próprio Stallone assumindo a direção de ambos os filmes. Na trama deste filme, Rambo está mais uma vez tocando sua vida de forma solitária, agora no norte da Tailândia, na fronteira com a Birmânia (atual Mianmar). Ele vive como caçador de cobras e barqueiro. Ele é contatado por um grupo de missionários que precisa de seus serviços de barqueiro para levá-los até a Birmânia, onde eles pretendem oferecer ajuda humanitária para pessoas que estão sofrendo a guerra civil no país, como era de se esperar, Rambo recusa, mas o interessante é observar a postura dele em relação ao conflito. Ele não quer entrar na zona de guerra, mas não por estar por estar buscando a paz para si, e sim porque perdeu completamente a fé na humanidade e para ele, a ideia de pessoas tentarem oferecer ajuda em uma guerra através da paz parece pura tolice. Se John Rambo antes era uma figura triste por não encontrar a paz, aqui é uma figura amarga e endurecida, para ele a humanidade está perdida e não há o porque lutar contra isso, a forma com que ele age no início do filme dá a entender que ele vive como se apenas esperasse a hora da morte. E não é só isso, Rambo neste filme chega a reconhecer a si mesmo como uma extensão da violência da guerra, em um rápido, mas muito bom, monólogo narrado que eu usei inclusive para abrir esta postagem.
Rambo acaba sendo convencido por uma missionária do grupo, Sarah, e por fim concorda levá-los de barco através da fronteira. Depois que são deixados lá, acabam sendo capturados por soldados birmaneses e com isso Rambo parte com alguns mercenários para resgatá-los. Como você pode ver, a trama de Rambo IV é bem simples e direta, tanto que o filme é bem curto, cerca de 90 minutos incluindo os créditos, sendo este um dos acertos do filme na minha opinião. Seguindo uma formula bem típica em filmes de ação dos anos 80, o filme não perde tempo em estabelecer os personagens e se concentra na tensão e na ação em si, mostrando que a produção estava bem ciente de sua proposta sem perder o foco daquilo que Rambo se tornou dentro do cinema, inclusive a estrutura em que a história é contada lembra bastante Rambo II: A missão. As cenas de ação por sua vez além de bem realizadas e dirigidas, surpreendem pela sua extrema violência gráfica, o que pode chocar pessoas mais sensíveis a cenas fortes.
Cenas essas que de tão fortes, acabaram gerando críticas na época do lançamento do filme por parte da imprensa especializada, que consideraram apenas um espetáculo de sadismo, o que ao meu ver é um equivoco. Stallone declarou em entrevistas que não tinha a intenção de retornar ao personagem se não tivesse algo a dizer, para tal ele pesquisou qual conflito estava ocorrendo que não estava sendo devidamente noticiado pela mídia, nisto ele chegou até o conflito da Birmânia, que atualmente é considerada a guerra civil mais longa da humanidade, tendo início em 1948 e até hoje não foi devidamente encerrada. Esta não é a primeira vez que a série utiliza de um conflito real como pano de fundo para sua história, porém o que chama atenção deste em relação aos anteriores (com exceção do primeiro) é a seriedade com que ele trata a guerra, por mais que a intenção do filme ainda seja ser um filme de ação simples de certa forma até escapista, não é um filme de guerra como A lista de Shindler ou Guerra ao terror porém ele jamais nega os horrores da guerra, pelo contrário ele é um filme sujo, cascudo e até certo ponto, realista, para os padrões de um filme desse tipo. Realismo esse que inclusive na minha opinião, não foi repetido em Rambo: Até o fim, cuja violência está mais próxima de um filme de terror trash do que o que é mostrado aqui.
E avaliando apenas pela ótica de um filme brucutu, Rambo IV é um prato cheio, as cenas de ação são muito bem realizadas. Mesmo utilizando o recurso de "câmera tremida" as cenas nunca chegam a ficar confusas e ainda, tal qual um filme dos anos 80, faz um uso muito bom de efeitos práticos na maior parte do tempo, o que não só garante mais impacto nas sequencias de ação, como combina muito bem com a estética suja do filme. Além disso, eu afirmo com toda certeza, clímax de Rambo IV é uma das coisas mais impressionantes que eu já vi em um filme de ação, dada a crueza com o qual a cena é realizada, ela consegue sem caótica e muito bem orquestrada ao mesmo tempo, haja sangue e tripas voando. O próprio Stallone falou da proposta de realizar o filme como um filme antigo (anos 80), algo que ele levaria para outros projetos posteriores como Os Mercenários, em 2010. Honestamente, eu acho inclusive que ele devia apostar na direção de filmes do gênero com mais frequência.
Acho
que deu pra perceber o quanto eu gosto desse filme, ele pode até não
ter a carga emocional que o primeiro filme tinha, cujos elementos de drama se equilibravam bem com a adrenalina das situações, fora que o embate
entre o Rambo e o Xerife Teasle é muito mais significativo do que os
vilões apresentados aqui, cujos nomes sequer tem importância e o
protagonista acaba por carregar praticamente toda a carga dramática do filme nas costas. Mas
ainda assim eu considero um filme de ação exemplar, sem o menor pudor, ele faz
um espetáculo de tiro-porrada-bomba da forma mais honesta possível, e
não há como negar que existe capricho nessa honestidade. Como se não bastasse o filme ainda têm um final otimista, por mais estranho que soe em um filme desse tipo. Depois de toda a brutalidade mostrada até então e sem utilizar nenhum diálogo ou narração, o filme encerra com o Rambo dando mais uma chance a si mesmo para consertar o seu passado e seguir em frente, pena que o quinto filme optou por colocar o personagem novamente em uma nuvem de pessimismo, desta vez provavelmente de forma definitiva. Que fique claro eu gostei de Rambo: Até o fim, e o final que deram para o personagem é condizente com o próprio e com o tom do filme, porém não posso negar que pra mim, o quarto filme já era um ótimo fim de ciclo para John Rambo.
"Este
texto reflete apenas a minha opinião, se você discorda, acha que me
equivoquei em algum momento ou tem algo à acrescentar sinta-se à vontade
para se expressar nos comentários, mas com educação."




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