"...Para onde será que eu vou?
hu,hu.
Ah, como a rede é vasta?"
Publicado entre 1989 e 1991, o mangá The Ghost in the Shell (sim, tem o "the" na frente) escrito e desenhado por Shirow Masamune acaba destoando das produções que a sucederam muito mais do que apenas o estilo de desenho, ao mesmo tempo é possível reconhecer vários dos temas que viriam a ser abordadas nessas outras versões.
Na história somos levados a um futuro próximo em que o avanço da tecnologia foi tão grande que foi integrado a vida humana quase integralmente Para quem já assistiu ao animê, resumindo a sinopse assim pode dar a entender que filme dos anos 90 é uma adaptação fiel ao mangá original, já que essa mesma história se aplica a ambas as versões, porém na verdade o tom de ambas as obras é tão destoante que caso você só conheça apenas o animê, pode levar um susto ao ter contato com a versão original. Além de um traço diferente, o mangá tem uma narrativa episódica e usa desse artifício não só para tratar de outros casos policiais e conspiratórios investigados pela Seção 9, as cenas de ação são bem mais presente e também tem até um pouco de humor, humor esse que é daquele jeito típico de mangás mais tradicionais, com expressões exageradas nos rostos. O diretor Mamoru Oshii, ao adaptar a história, focou no arco principal do mangá do Mestre dos Fantoches e expandiu o teor reflexivo da trama ao colocar os personagens constantemente discursando e debatendo sobre a evolução da tecnologia e aquilo que destaca o humanos enquanto indivíduos. Esse estilo não era particularmente novidade para o diretor, outro trabalho dele que também possui bastante monólogos reflexivos e contemplativos, talvez até mais que em Ghost in the Shell e com um foco mais religioso, é Tenshi no Tamago, também conhecido como Angel's Egg de 1985.
Falando dessa forma, parece até que estou colocando todo o mérito da parte filosófica de GiTS no animê de 1995, o que não é verdade, o que filme faz é expandir estes conceitos, mas muitos já estavam sim presentes no mangá, que é carregadíssimo de textos. Além disso, para quem já assistiu Ghost in The Shell: Stand Alone Complex vai notar elementos em comum entre este animê e o mangá também, já que o mangá abre muito mais espaço para a parte policial da história através da Seção 9.
Em vários momentos do mangá, os personagens refletem sobre o impacto das novas tecnologias na sociedade e na individualidade dos seres vivos, isso também é acaba fazendo parte nas participações das Fuchikomas, simpáticos robôs que também servem como tanques de guerra pela Seção 9, elas possem uma inteligência artificial teoricamente padronizada e com uma personalidade meio infantil, mas em vários momentos do mangá são movidas por uma curiosidade individual e chegam a questionar os próprios direitos, falar de livre arbítrio e até sobre Deus, mas sempre de uma forma bem humorada. Pra quem assistiu Ghost in The Shell: Stand Alone Complex, vai notar o mesmo tipo de discussão com as Tachikomas, que são basicamente o mesmo tipo de robô.
Em contra partida, um dos pontos que o mangá mais difere do filme e que consequentemente reflete no tom geral da história está em sua protagonista, aqui Motoko tem uma personalidade muito mais irreverente e descontraída do que nas adaptações, não raras as vezes em que ela está debochando dos outros membros da seção 9 e isso contribui para o clima mais divertido do mangá, até mesmo a sensualidade da personagem é abordada de forma diferente. Mas não se enganem, a personagem leva a sério sua posição de comando e os casos que investiga, conforme a história vai avançando e Mestre dos Fantoches vem à tona ela vai assumir uma expressão mais pensativa. e já que eu comparei com Stand Alone Complex, outro ponto em que está série puxa bastante do mangá é a parte sociopolítica, muitos dos casos que os personagens investigam são ligados a políticos influentes e grandes empresas de tecnologia (dentro do universo da história, é claro) que utilizam de métodos escusos para conseguir todo tipo de vantagens pessoais e a posição do Japão dentro do cenário mundial é colocada em debate várias vezes ao longo do mangá, é importante lembrar que esse mangá foi escrito durante a Guerra Fria e em um período de grande efervescência econômica e tecnológica no Japão. Esse elemento está presente no animê de 95, mas é colocado em segundo plano para que o foco seja quase inteiramente na parte de filosofia individual.
E é claro, isso nos trás ao ponto central do filme e também o arco principal do mangá, o Mestre dos Fantoches e a inteligência artificial como forma de vida. Soa até engraçado tocarmos nesse assunto hoje em dia, já que as IAs estão atingindo um desenvolvimento surpreendente em uma velocidade nunca vista, tornando o presente e o futuro imprevisíveis de uma forma impressionante e até assustadora. Não vou dar detalhes sobre a trama para não estragar nenhuma surpresa para quem ainda não leu ou assistiu, mas digamos que a parte final está alinhada tematicamente com aquilo que foi visto no filme, pra quem já assistiu, é aí que você observa que o animê não foge tanto da história do original, com inúmeros eventos sendo transpostos para o filme, óbvio que com o tom diferente e bem mais contemplativo. Na verdade, o mangá como um todo é cheio de textos e notas de rodapé contextualizando o universo do mangá, abordam temas relacionadas ao conceito de ser vivo ou a evolução das tecnologias, sendo que era uma época que ainda não tinha visto o que a internet seria capaz de fazer, para o bem ou para o mal, até comentários do autor sobre assuntos atuais diversos (atuais pro Japão do fim dos anos 80), são tantos que é até recomendada que na primeira leitura, o leitor ignore estes textos complementares para não prejudicar o ritmo da história.
Por fim, quero dizer que a primeira vista o mangá pode parecer muito diferente do que alguém que só teve contato com Ghost in The Shell através dos animês vai esperar, o que não deixa de ser verdade, mas quando se para para analisar com cuidado e prestar atenção nos pontos-chave da trama e elementos abordados, seja no pano de fundo ou não, vai notar que as adaptações sempre tentam puxar elementos vindos da história original, sem nunca descaracterizá-las, mesmo sendo tão distintas. Sejam os filmes, a série Stand Alone Complex (essa inclusive cuja produção tentou buscar um meio termo entre o tom do mangá e a versão dos anos 90), os OVAs Arise ou até mesmo o live-action. Agora em 2026 está para ser lançado um novo animê de Ghost in The Shell, cuja proposta ao que parece e ser uma versão mais fiel ao mangá, vamos ver como vai ser a reação das pessoas ao comparar as diferentes versões dessa história.
Eu comecei a escrever esse texto há quase um ano, o rascunho ficou parado por um bom tempo até que eu me lembrei de concluí-lo de um jeito meio torto, já que eu tinha perdido o ritmo da escrita e não queria ter reescrever tudo, mas fica aí o resultado final.👍
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